O filho perdido de Joana
Joana entrou na sala encolhida, falando baixo. Eu a via pela primeira vez.
"Faz quatro anos que meu filho desapareceu. Desapareceu não, ele morreu mas eu não consigo dizer isso, então eu falo que ele desapareceu. Todo mundo sabe que ele morreu, mas eu não consigo dizer isso"
Nasceu no Rio de Janeiro, onde passou boa parte da vida. Um dia seu filho de dezessete anos contou que havia engravidado a namorada. Aflito, ansioso, sem saber muito bem ser pai, já que o próprio pai nunca o havia visto. Certo dia 30 de algum mês entrou em casa gritando, pedia socorro. Todo corpo vivo estremece quando escuta em pavor: "Me ajuda, mãe". Joana logo deduziu que o filho desesperava com o medo de ser pai e, antes que ele lhe dissesse, já o abraçava e acalmava. "Não fique assim, tudo se ajeita. Essa menina é boa". Lágrimas caíam.
No dia 6 do mês seguinte o filho não voltou para casa. Joana achava que era coisa de moleque querendo se isentar da paternidade, ficou com raiva, procurava dizendo que o mataria quando aparecesse. Passaram alguns dias, a vizinhança toda sabia de seu sumiço, nada de seu paradeiro. Lá pelos sete dias foi atrás da família do pai do menino, de quem se afastara depois de alguns anos de agressões. Nada.
Junto com ele, outros dois meninos do morro sumiram e nada de voltarem para casa. Uma das mães não quis dar parte: "Meu filho já estava jurado, não vou denunciar para ninguém", e fechou o portão de fora da casa. Joana não compreendia. Como poderia uma mãe viver com essa dor no coração? Por que seu filho estava jurado e cometeu alguns erros ela não o procuraria?
Investigações, inquéritos, intimações, depoimentos, Conselho Tutelar, CREAS... Cada telefonema que recebia morria um pouco sua esperança. Um ano depois o delegado informa:"Fechamos o inquérito com homicídio com ocultação de cadáver. Seu filho devia estar fumando maconha em bairro de miliciano.
Joana não conseguia falar sobre isso. Tentou suicídio três vezes. Ataques constantes de raiva.
Falamos sobre processo de luto, sobre ritual de passagem, sobre poder despedir-se. Joana chorou.
Como poderia um erro ser tão grave a ponto de tirar a vida de um filho que tem mãe? Qual tecnologia em comprimidos poderia, então, amenizar a sua dor?
Joana queria entender. Não há respostas que contemplem a vida real.
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